Punha-me com frequência atrás das cortinas da janela mais distante das do quarto onde ela dormia para a ver quando ela devia crer que ninguém a via. Podia vê-la a sair da sua cama, e disfrutar dela na minha imaginação amorosa; e ela poderia conceder esse consolo à minha chama sem se comprometer em nada, pois podia dispensar-se de adivinhar que eu estava à espreita. Era no entanto o que ela não fazia. Parecia-me que ela apenas mandava abrir as suas janelas para me atormentar. Via-a na sua cama. A sua criada de quarto vinha vesti-la pondo-se à frente dela de maneira a que eu já não a podia ver. Se depois de saída da cama vinha à janela para ver que tempo fazia não olhava as do meu quarto. Estava certo de que ela sabia que eu a via; mas ela não queria dar-me o escasso prazer de fazer um movimento que me poderia fazer conjecturar que ela pensava em mim.
Um dia que a sua criada de quarto lhe cortava as pontas espigadas dos seus longos cabelos, juntei e pus sobre a sua toilette todos os que tinham caído no soalho, excepto um pequeno grupo que pus no meu bolso acreditanto positivamente que ela não teria notado. Depois da criada ter partido, disse-me com doçura, mas um pouco demasiado seriamente, de tirar do meu bolso os cabelos que tinha junto. Achei aquilo demasiado forte: um rigor assim pareceu-me injusto, cruel e deslocado. Tremendo ainda mais de despeito do que de cólera, obedeci; mas atirando os cabelos sobre a sua toilette com o ar mais desdenhoso:
- Senhor, estai-vos a esquecer.
- Pelo golpe, senhora, podias ter dado a impressão de não ver o meu roubo.
- Aborrecemo-nos a dar a impressão.
- Que podias Vós suspeitar de negro na minha alma em consequência desse furto pueril?
- Nada de negro; mas sentimentos por mim que não Vos é permitido ter.
- Só me podem ser proibidos pelo ódio, ou pelo orgulho. Tendo um coração não serias vítima nem de um, nem de outro; mas vós não tendes senão espírito, e deve ser maldoso pois apraz-se em humilhar. Vós surpreendeste o meu segredo, mas em troca eu reconheci-vos bem. A minha descoberta ser-me-á mais útil do que a vossa. Tornar-me-ei inteligente talvez.
Depois dessa partida saí, e não ouvindo chamar-me, fui para o meu quarto, onde esperando que o sono me pudesse acalmar, me despi e fui para a cama. Em momentos destes um homem apaixonado encontra o objecto que ele ama indigno, odioso e desprezível. Quando me vieram chamar para cear, disse que estava doente; não conseguia dormir, e curioso de ver o que me ia acontecer, não me levantei, continuando a dizer que estava doente quando me chamaram para jantar. Fiquei encantado de à noite me encontrar muito desanimado. M.F. veio ver-me e desembaracei-me dele dizendo que tinha uma grande dor de cabeça, ao qual era sujeito, e da qual apenas a dieta me curava.
(Traduzido da edição francesa a partir dos manuscritos originais, das Éditions Robert Laffont)
Monday, November 30, 2009
Saturday, May 17, 2008
Notícia de Última Hora
O maior artista plástico vivo chama-se Anselm Kiefer ao contrário do que foi reportado pela maior parte das agências noticiosas. O indivíduo chamado Gerhard Richter foi referido por erro.
Lista de afazeres
1. Provar porque é que Robert Rauschenberg é mais importante para a pop-art que a nulidade loura.
2. Criar a máquina que recria Marcel Duchamp.
3. Explicar porque é que uma certa escrita acaba com Heinrich Kleist
4. Explicar porque é que uma certa filosofia acaba com Martin Heidegger
5. Explicar porque é que uma certa poesia acaba com Holderlin
6. Explicar como uma tela de Lucian Freud vale 50 anos de criação de Damien Hirst
7. Demonstrar que Manuel Vasquez Montalban e José Cardoso Pires são irmãos de sangue e de tempo.
8. A revolução é possível? Qual?
9. Ensaio sobre a percepção do perigo e suas dimensões genéticas, físicas, hormonais, educacionais e culturais. História da passagem de nível. Traders masculinos. Mercados de apostas como preditores. Liberdade é incerteza mas não necessariamente insegurança!
2. Criar a máquina que recria Marcel Duchamp.
3. Explicar porque é que uma certa escrita acaba com Heinrich Kleist
4. Explicar porque é que uma certa filosofia acaba com Martin Heidegger
5. Explicar porque é que uma certa poesia acaba com Holderlin
6. Explicar como uma tela de Lucian Freud vale 50 anos de criação de Damien Hirst
7. Demonstrar que Manuel Vasquez Montalban e José Cardoso Pires são irmãos de sangue e de tempo.
8. A revolução é possível? Qual?
9. Ensaio sobre a percepção do perigo e suas dimensões genéticas, físicas, hormonais, educacionais e culturais. História da passagem de nível. Traders masculinos. Mercados de apostas como preditores. Liberdade é incerteza mas não necessariamente insegurança!
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